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Nos anos 70, no auge do chamado milagre econômico brasileiro, o governo apostou na abertura de vagas nas universidades em cursos de áreas consideradas chave para o país. Entre elas, estava a Medicina. Era época da Ditadura Militar.
Quase 40 anos depois, setores da gestão mantém a crença de que o aumento no total de médicos em atividade pode melhorar o acesso à assistência em saúde. Mas será que as desigualdades gritantes do acesso à saúde no Brasil e os problemas históricos que assolam o atendimento da população seriam superados com uma solução tão simples?
De imediato, nossa experiência dizia que não. No entanto, cientes de nosso papel em defesa da sociedade, decidimos testar essa hipótese e ver se ela resistia a argumentos técnicos e científicos.
Foi essa preocupação o ponto de partida para a elaboração da pesquisa Demografia Médica no Brasil, elaborada em parceria pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), cujos primeiros resultados são agora divulgados.
O trabalho – conduzido pelo Doutor em Ciências e pesquisador Mário Scheffer – tem a inédita ousadia de fazer um diagnóstico lógico e consequente da população médica no Brasil, elencando suas principais características e indicando as fragilidades que devem ser combatidas para o fortalecimento da atenção em saúde no país.
Um dos méritos deste estudo, que, esperamos, será peça-chave para o desenvolvimento de políticas públicas nas áreas do ensino e do trabalho médico, é evidenciar a desigualdade à qual profissionais e usuários estão expostos.
Ora, numa Nação onde são anunciados avanços econômicos e o combate à pobreza toma ares de programa de governo, torna-se imperioso que a saúde ocupe a centro da cena. Para tanto, temos reiterado a necessidade de mais recursos e o estabelecimento de políticas públicas justas para com o médico e todos os profissionais da área.
Somente com a adoção dessas medidas, como a implementação de Planos de Cargos, Carreiras e Vencimentos (PCCV) e de uma carreira de Estado para o médico, entre outras categorias, será possível oferecer aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) o atendimento ao qual têm direito: universal, integral e com qualidade.
Por outro lado, os dados podem ser úteis também para entender e enfrentar as dificuldades que atingem a assistência médica suplementar, área onde o respeito ao paciente e ao médico foram esquecidos pelas operadoras de planos em detrimento da cultura que favorece o lucro.
Enfim, se os problemas que elencamos são complexos é de se esperar que as respostas capazes de resolvê-los ignorem a lógica simplista e busquem seu lastro nos argumentos técnicos capazes de influenciar também a decisão política.
*Roberto Luiz d´Avila – Presidente do Conselho Federal de Medicina
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