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Segundo o executivo Osvino Pinto de Souza Filho, a FDC possui uma metodologia diferenciada de gestão, que pode contribuir para solucionar as inconsistências do setor em aspectos administrativos, regulatórios entre outros
A melhor Escola de Negócios da América Latina, segundo a revista AmericaEconomia, e a 5ª melhor Escola de Negócios do Mundo, de acordo com o ranking de educação executiva do Financial Times, enxerga a Saúde como área chave para o desenvolvimento sustentável da sociedade. Presente em mais de 15 países, a Fundação Dom Cabral (FDC) possui, desde 2009, programas específicos para os gestores do setor de Saúde.
Há quem diga que o segmento seja um dos mais complexos para administrar, afinal, é preciso atender às necessidades “vitais” da população, assim como os interesses econômicos do mercado, sem contar o desafio de administrar instituições que funcionam sete dias por semana, 24 horas por dia, como é o caso dos hospitais.
Dessa forma, a FDC constatou a necessidade de especializar-se em Saúde por meio de pesquisas e programas de desenvolvimento de executivos e empresas. Para 2012, a Fundação, em parceria com a IT Mídia, realizará o Programa de Gestão Estratégica em Saúde – o primeiro curso setorial da entidade no País. Depoimentos, aulas expositivas e dinâmicas de grupo serão norteadas por proposições como: a cadeia de valor que forma o sistema; estratégias para cada instituição e o potencial de colaboração.
À frente do Núcleo de Gestão em Saúde da FDC está o mineiro Osvino Pinto de Souza Filho, engenheiro elétrico de formação, professor nato e expert em gestão empresarial, tendo passado por grandes siderúrgicas como Açominas e Usiminas.
Segundo o executivo, a FDC possui uma metodologia diferenciada de gestão, que pode contribuir para solucionar as inconsistências do setor nos mais variados aspectos: administrativos, regulatórios, processuais e de relacionamento.
Em entrevista à FH, Souza Filho traça um paralelo entre a evolução da indústria brasileira de modo geral e a situação da Saúde nos dias de hoje. O paciente como ponto central no planejamento das instituições parece ser a tendência sustentável do sistema. “Temos como premissa realizar qualquer estudo ou programa tendo como foco o aprimoramento assistencial ao paciente”, ressalta Souza Filho, durante entrevista.
FH: Como a expertise em gestão da Fundação Dom Cabral pode contribuir para o desenvolvimento do setor de saúde?
Osvino Pinto de Souza Filho: A fundação nasceu em Minas Gerais, em 1976, a partir da demanda de empresas como Usiminas, Cemig, Telemig, entre outras. Estas eram dirigidas por engenheiros, ou seja, profissionais sem capacitação adequada para gerir. A linha acadêmica das universidades não atendia as necessidades dos executivos. A fundação surgiu para gerar conhecimento teórico e prático, com fundamentação científica.
É isso o que acontece na saúde atualmente. Os profissionais que estão à frente das instituições, muitas vezes, são médicos, que não tiveram formação administrativa adequada.
FH: Como e com qual objetivo surgiu o Núcleo de gestão em Saúde da Fundação Dom Cabral?
Souza Filho: A FDC sempre teve hospitais e planos de saúde como clientes, mas o tratamento era o mesmo para qualquer outro cliente da indústria. Os serviços e conceitos de gestão eram os mesmos, mas percebi que o setor de saúde precisava de personalizações. Por meio de um programa de especialização em gestão da atenção à saúde, em conjunto com o Hospital Sírio Libanês, é que essa necessidade ficou evidente.
Em 2009 o Núcleo foi criado oficialmente para atender os gestores da Saúde. Nossa metodologia é andragógica, onde os participantes são tratados como contribuintes, e o professor é apenas um facilitador. Existe um modelo customizado para as empresas desenvolvido internamente; e um programa aberto, estruturado com fóruns que debatem o equilíbrio do setor.
FH: A setor de saúde brasileiro está atrasada em relação aos outros setores?
Souza Filho: Nenhum setor amadurece antes da hora. O mercado pede pelo amadurecimento. Durante muitos anos a falta de capacitação não fazia diferença, mas o cenário agora é complexo, altamente competitivo, com tecnologias caras, formação de redes hospitalares, planos de saúde e laboratórios com abrangência nacional, criação dos órgãos reguladores, etc. A formação dos profissionais não acompanhou essa mudança e, com a demanda pela atenção especial foi se perdendo o foco no paciente, que é a razão de ser do sistema.
FH: A relevância do paciente no centro da atenção à saúde é um consenso para o setor?
Souza Filho: Fazendo um paralelo com a Indústria brasileira na década de 70, por exemplo, não havia praticamente competição. Entre os anos 80 e 90, com a abertura do mercado, o setor ficou exposto à concorrência. A partir de então, o foco estava no cliente (movimento conhecido como “product out”, na linguagem empresarial) e, depois, passou a ser do cliente (market in). Ou seja, o mercado é quem dita as regras. Todos querem disputar a atenção do cliente e fidelizá-lo.
A saúde, aos poucos, está migrando para esta visão. No entanto, o sistema atual ainda está estruturado na valorização da doença e, não, na saúde. É um sistema “hospitalocêntrico”, em que o paciente se lembra do sistema de saúde apenas quando está doente. As instituições começam a ficar mais atentas à educação do paciente em relação à prevenção com a ciência do barateamento do custo e da felicidade do paciente.
FH: A relação entre prestadoras e operadoras é uma das mais conturbadas do setor. Baixa remuneração e glosas são as reclamações mais comuns por parte dos hospitais. O que falta para que um consenso se estabeleça?
Souza Filho: Enquanto essa relação for priorizada sobre a questão do paciente, os problemas permanecerão. Eles ficam discutindo quem vai ganhar mais e não pensam em uma solução comum que possa garantir bons resultados para ambos e, acima de tudo, para o paciente.
Hoje em dia, o usuário final da Saúde está à mercê do sistema, e só procura assistência quando está fragilizado. As empresas têm de ter consciência do papel que desempenham, pois da forma que está estruturado, o paciente passando mal não vai ficar escolhendo nada.
FH: Podemos listar inúmeros aspectos controversos e repletos de problemas do setor como, por exemplo, remuneração, regulação, condições de trabalho, financiamento do setor, gestão e processos das instituições, interesses divergentes, entre outros. Qual a relevância que a Dom Cabral pretende ter junto às instituições reguladoras, associações de profissionais e entidades representativas?
Souza Filho: No campo das pesquisas realizadas o objetivo é manter a análise científica das respostas para as questões levantadas. Seja quem for que esteja financiando o programa, o resultado é pautado por rigor científico, afinal, somos independentes e idôneos.
A intenção é mostrar os resultados para órgãos como a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), entre outros.
É levar o know how de 35 anos em gestão, sem a intenção de enviesar a discussão.
Temos como premissa realizar qualquer pesquisa ou programa tendo como foco o aprimoramento assistencial ao paciente.
FH: A discrepância entre o financiamento público e o privado é evidente. Dos 8% do PIB gastos com Saúde, 4,5% são direcionados ao setor privado, que atende pouco mais de 20% da população. De que forma as ações da Dom Cabral poderiam contribuir para solucionar o problema? Existe alguma estratégia diferenciada para a área pública?
Souza Filho: Não temos dados científicos que nos indiquem se este valor realmente é insuficiente para financiar o setor. Ainda não atingimos o custo da saúde ideal. Pesquisadores americanos indicam que os custos são crescentes, quando poderiam ser menores. Talvez o recurso disponível seja suficiente. Será que o custo realmente está otimizado ou ele cresce por causa de uma gestão inadequada?
FH: Os custos tecnológicos são cada vez mais crescentes, como vê o ingresso da tecnologia no sistema de saúde composto por instituições com baixo faturamento e, muitas vezes, de pequeno porte?
Souza Filho: Os equipamentos ficam obsoletos rapidamente. A indústria vai ter que pensar sobre isso. Em contrapartida, o uso da melhor tecnologia é mandatório. O sistema está se reorganizando e pode ser que pequenas instituições não sobrevivam ou que passem a atender pequenas necessidades e regiões.
FH: E nesta reorganização do setor, a colaboração se sobressairá?
Souza Filho: Se de um lado vem a competição, de outro, a colaboração torna-se indispensável. A colaboração tem que ser crescente, mesmo em um contexto competitivo.
FH: Com o aumento da expectativa de vida e das novas tecnologias disponíveis, o setor vem passando por mudanças significativas. Você acredita que essas mudanças refletem no perfil do profissional de saúde?
Souza Filho: Não só no perfil do profissional. Tem curso demais, perde-se qualidade, é preciso incorporar novas disciplinas, inclusive de gestão. O profissional de saúde é quem faz a qualidade do sistema. A tecnologia sozinha não faz milagre. Os programas de formação têm que estar alinhados com o novo perfil que está se desenhando.
O sistema está sendo redesenhado, muitos paradigmas serão quebrados, entre eles, a passagem do modelo “hospitalocêntrico” para o de prevenção. Muitos hospitais deixarão de existir. O profissional tem que entender isso e mudar o modo de pensar e agir.
ERRATA: No box, da página 17 da revista FH, a informação de que o Osvino conduziu a privatização da Açominas está incorreta. Na verdade, o executivo conduziu o estudo de reorganização da Açominas durante seu processo de privatização.
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