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A Geladeira e a Saúde

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7 de novembro de 2011 17:22

O mercado de geladeiras vem sofrendo a influência do efeito estufa e da mudança de clima que afeta o mundo nas últimas décadas. A utilização do CFC e do consumo de energia elétrica é objeto de regulação em muitos países, a qual a indústria tem respondido com eficiência produzindo novos modelos desprovidos desse gás e cada vez mais eficientes do ponto de vista do uso de energia elétrica. O aumento de temperatura do globo terrestre tem ampliado a expectativa de vendas e o número de modelos é cada vez maior, com duas portas, freezer na parte superior, na parte inferior, com dispensador de água ou gelo na porta, tamanhos e capacidades das mais diversas, estilos modernos ou retrô, cores e tonalidades das mais variadas, além da incorporação da tecnologia digital que possibilita a programação do descongelamento de alimentos automaticamente ou controlados por wireless.

Com toda essa diversidade o consumidor tem sempre alguma dificuldade para escolher o refrigerador que melhor se adapta a sua necessidade, mas o processo de comparação de tamanhos, design, consumo de energia, preços, estilo da cozinha onde será colocada e de outras informações que estão totalmente disponíveis nos manuais e que podem ser constatadas in loco, permitem que esse consumidor compre o produto que o atenda integralmente.

Assim é o mercado de geladeiras, em que há a necessidade de propaganda para que os atributos dos produtos sejam divulgados e gerem a vontade no consumidor de trocar de equipamento e onde o vendedor é treinado pela indústria para destacar esses atributos e ajudar a esclarecer as dúvidas que eventualmente surjam nesse processo.

Vamos pensar agora no mercado da saúde e compará-lo com o mercado de geladeiras: na saúde o consumidor ou paciente não tem a sua disposição todas as informações para fazer a escolha do melhor tratamento que atenderá suas necessidades. Essas informações são do médico e essa decisão é realizada por esse profissional, que detém todo o conhecimento sobre a tecnologia a ser utilizada para o diagnóstico e o tratamento do paciente, de forma isenta e sempre pensando no melhor resultado para esse, ou deveria ser dessa forma.

Será que é assim que acontece? Será que a indústria de equipamentos, medicamentos, materiais e de prestação de serviços de saúde não atua como a indústria de geladeiras, fazendo propaganda de seus produtos e treinando os seus vendedores para que os pacientes consumam mais das suas marcas e produtos? Será que a indústria da saúde, com o seu aspecto social e relevância para as populações deve estar submetida a esse modelo de mercado, colocando o cuidado do paciente como uma forma de comercialização de produtos?

Esses questionamentos têm sido feitos já há muitos anos por todos os governos e países no mundo e alguns escolheram por transformar a indústria da saúde num modelo de pleno mercado, como é o caso dos Estados Unidos, em que a propaganda de medicamentos e de tratamentos é feita em todas as mídias, os especialistas nas tecnologias são a maioria dos profissionais médicos e os hospitais são os locais preferidos para o cuidado do paciente. Esse modelo tem se mostrado muito caro e de pouca eficiência para resolver o problema dos pacientes, por outro lado a indústria tem bons resultados.

Em outros países, como em quase toda a Europa, Canadá, Austrália, entre outros, se resolveu que a indústria estaria a serviço das suas populações e que o modelo teria um controle maior por parte do Estado. Nesses o cuidado do paciente é feito por um médico generalista, que é muito prestigiado pelo amplo conhecimento que detém e pelos resultados que consegue, e o especialista está no ápice de uma pirâmide como referência para os casos mais complexos e que necessitam da sua intervenção. Nesse modelo o número de médicos generalistas e especialistas é controlado pelo Estado, que define o número de vagas para sua formação de acordo com as necessidades da população, sendo que em nenhum deles há menos do que 35% de vagas para especialização em medicina geral. Os resultados obtidos com esse modelo são melhores e com menores custos que o do mercado (vide http://gamapserver.who.int/mapLibrary/).

E no Brasil que modelo adotamos? Ambos, com predominância do modelo de mercado, pois esse tem um volume maior de recursos (56% dos gastos do país) e detém o poder de direcionamento da formação de especialistas, que sobram nos grandes centros e estão ausentes nas periferias e interior do país.

Já no sistema público, o SUS, o modelo é do médico generalista que, entretanto, não tem candidatos para suas vagas, por total falta de prestígio, num mercado que dá muito valor e propagandeia a sofisticação tecnológica como a melhor forma resolução dos problemas de saúde.

O brasileiro sabe escolher geladeiras e o faz bem, porém tem sido levado a achar que saúde também segue o mesmo modelo de compra, apesar de que as lojas públicas não tem o produto que procuram.

Com perspectivas de aumento de recursos para o SUS, através da regulamentação da emenda 29, está na hora de se repensar o modelo da indústria da saúde no Brasil. O médico, figura central desse processo, tem papel importantíssimo na mudança e deve rever conceitos e bandeiras, defender um SUS que remunere de forma adequada o médico, ampliando em muito o número de generalistas, que controle as vagas das residências médicas, priorizando as de generalista e das especialidades básicas.

As escolas médicas não devem ser fechadas, mas sim melhoradas – no Brasil há 17 médicos para cada 10 mil habitantes, na Europa a média dos países é de 35 médicos para cada 10 mil habitantes (1).

Os profissionais da saúde não médicos contribuirão com a melhoria e ampliação da assistência assumindo maiores responsabilidades no atendimento dos pacientes, deixando para os médicos os problemas que necessitam do seu conhecimento e habilidade – em grande parte dos países uma receita de óculos é fornecida por um profissional técnico e os oftalmologistas estão centrados nas doenças dos olhos que somente eles podem tratar (catarata, glaucoma, degeneração macular), por exemplo.

A discussão desses temas deve ser ampliada de modo a permitir que o cidadão brasileiro possa optar entre consumir saúde como geladeiras ou ter um sistema que atenda suas necessidades e que melhore sua vida.

Referencias:

1. World health statistics 2011; WHO Library Cataloguing-in-Publication Data; World Health Organization; http://www.who.int/whosis/whostat/EN_WHS2011_Full.pdf

 

 

  • http://twitter.com/brhospitalist Guilherme Barcellos

    Qual tu achas que é efetivamente o papel do paciente nestas escolhas? Com a crescente atenção pública a segurança dos pacientes, surgiu a necessidade de maior participação deles e de seus defensores. Mas conseguem entender? Em relação à segurança do paciente mais especificamente: seriam capazes de escolher bem ou de advogar por si mesmos no que se refere às práticas de segurança? Como a experiência do Dr. Berwick, presidente do Institute of Healthcare Improvement, com a saga de sua mulher tornou claro, há limitações reais nas habilidades dos pacientes e familiares de se protegeram dos erros, mesmo quando na há limitada proficiência de linguagem e/ou educação sobre saúde. A responsabilidade por vender a “geladeira certa” não é primariamente de todos os outros, legisladores, instituições de saúde e profissionais?

  • Silvio

    Caro Guilherme,
    Sem dúvida o papel de todos os que participam do mercado, particularmente o Estado, representado pelo Ministério da Saúde, Secretarias estaduais e municipais, além dos legisladores, é fundamental para que essa falha de mercado possa ser compensada através de medidas regulatórias. Destaquei o papel do médico pois acredito que hoje há a defesa de algumas bandeiras (fechamento de escolas, ato médico, etc.) que restringem o acesso da população aos serviços de saúde, ao invés de ampliá-las. A mobilização da categoria para uma mudança de modelo, para um sistema hierarquizado, concentrando ações na atenção primária (com formação de profissionais para essa área, reduzindo o número de especialista atuamente formados) e com serviços secudários e terciários em número adequado e bem distribuidos (aqui os especialistas terão seu lugar garantido) de acordo com as necessidades da população, traria maior peso para o processo.
    Quanto ao papel do paciente, a informação é fundamental para garantir que possa participar das escolhas com maior conhecimento de causa, porém o “by as” das informações disponíveis reduzem a capacidade deste nessa escolha (sabemos que as publicações que interessam à industria tem uma divulgação muito maior que as que não interessam).

  • http://twitter.com/brhospitalist Guilherme Barcellos

    Muito interessante! Já fui defensor ferrenho de algumas das bandeiras que questionas e hoje as percebo inclusive como um tiro no pé de nossa própria corporação. Evolução ou retrocesso? A maioria de nossos colegas diria retrocesso, o que escancara o tamanho da mudança cultural que propões.
    Não acho que o fechamento de escolas pelo simples fechamento seja solução e concordo contigo que o mais importante é melhorá-las. Mas para que percebam que existe vontade para tal, algumas precisam ser usadas de exemplo do que não pode ser feito. E aí teremos escolas a ser fechadas…

  • http://twitter.com/brhospitalist Guilherme Barcellos

    Muito interessante! Já fui defensor ferrenho de algumas das bandeiras que questionas e hoje as percebo inclusive como um tiro no pé de nossa própria corporação. Evolução ou retrocesso? A maioria de nossos colegas diria retrocesso, o que escancara o tamanho da mudança cultural que propões.
    Não acho que o fechamento de escolas pelo simples fechamento seja solução e concordo contigo que o mais importante é melhorá-las. Mas para que percebam que existe vontade para tal, algumas precisam ser usadas de exemplo do que não pode ser feito. E aí teremos escolas a ser fechadas…

  • Flavializy

    Ola!

    Encontrei um site / forum bem interessante sobre saude, com perguntas e respostas sobre doencas disturbios e sintomas, vale a pena conferir!
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