Dia 04 de fevereiro, Dia Mundial Contra o Câncer, é um dia para conscientização sobre uma doença cercada de desafios. Cerca 7,6 milhões pessoas morrem de câncer por ano, que representa 13% da população. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que até 2020 podemos chegar a 16 milhões. Destes, 70% são em países em desenvolvimento. É verdade que estes números podem ser devido à expectativa maior de vida (as pessoas vivem o suficiente para ter mais risco) ou de registros (que podem ser subestimados em locais de epidemiologia menos cuidadosa), mas inequivocamente estamos pagando o preço por décadas de maus hábitos, como tabagismo, uso abusivo de álcool e exposição inadequada ao sol.
De qualquer forma, possivelmente pelo diagnóstico em pessoas públicas, a doença tem sido menos estigmatizada. Não quer dizer que não assuste. Pelo contrario, assusta mais do que várias outras doenças de prognóstico até pior. O avanço se deve a maior informação sobre prevenção, detecção precoce, diagnóstico e tratamento. Atualmente, com técnicas sofisticadas e já existentes no país, é possível aumentar as taxas de cura para níveis excelentes. Muitos tumores malignos detectados mais precocemente são curados em mais de 90% das vezes. Exames sofisticados, como PET CT, permitem avaliar a extensão de alguns tipos de câncer de forma a direcionar manejo mais adequado. A radioterapia, antes associadas a desconfortos, com avanço tecnológico, consegue atingir seus objetivos com menos interferência fora do alvo. A quimioterapia, algumas já disponíveis por via oral, já não são tão desgastantes, com menos efeitos colaterais e melhores resultados. Estamos aprendendo a “mirar melhor”.
Mas infelizmente, seguimos amargando a inequidade. A medicina considerada estado da arte ainda é para menos de 20% da população que tem um bom plano de saúde.
A maioria dos tipos de câncer tem forte correlação com hábitos que a população já sabe aumentar riscos. Mesmo assim, ainda temos número assustador de pessoas que não consegue sair deste cenário. Temos vários motivos para isso. Talvez os mais presentes sejam a falta de acesso a serviços interdisciplinares que ajudem a mudança de hábitos. Ainda mais cruel é a cena de pacientes com diagnóstico recente que levam várias semanas para conseguir atendimento especializado. São queixas justas, uma vez que a sub-alocação de recursos para estas áreas é reconhecida. O desafio para os próximos anos é aproximar o real do ideal. De outra forma, pouco adianta cada passo que conseguimos.
Artigo originalmente publicado no Jornal Zero Hora, no dia 02/02/2012
Stephen Stefani é médico internista e oncologista. Especialista em auditoria médica. É consultor de várias operadoras de planos de saúde no país. Autor de dezenas de trabalhos, artigos e capítulos de livro sobre auditoria na área de oncologia e sobre economia da saúde. Coordenador da Câmara Técnica de Oncologia da Unimed do Brasil. Professor de Farmacoeconomia e de Gestão em Oncologia da Fundação Unimed. Presidente do capítulo Brasil da International Society of Pharmacoeconomics and Outcome Research (ISPOR). Membro do Comitê Executivo da ISPOR América Latina.
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