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Novidades em Segurança do Paciente

10 de fevereiro de 2012 17:52

Escrevo para compartilhar com os leitores do Saúde Web algumas recentes publicações e a partir delas proponho reflexões.

Na edição de fevereiro de 2012 de Health Services Research, há publicação intitulada ‘Is patient safety improving? National trends in patient safety indicators: 1998-2007′. Buscaram avaliar se qualidade e segurança vêm melhorando nos Estados Unidos.

Desta vez a partir de uma grande base de dados (apresentei um estudo menor com resultados semelhantes em postagem anterior) e avaliando o comportamento de qualidade e segurança se utilizando dos indicadores PSIs (patient safety indicators), propostos pela Agency for Healthcare Research and Quality (AHRQ) como forma de monitorar eventos adversos em tese preveníveis, os autores publicaram o primeiro estudo norte-americano nacional a observar tendências da última década.

Apesar das limitações do trabalho, os dados mais uma vez ilustram a complexidade do tema Segurança do Paciente e como não há espaço para fórmulas milagrosas neste cenário. Houve piora em questões importantes, como prevenção de tromboembolismo venoso, úlcera de decúbito e sepse pós-operatória (pioraram 7 dos 20 indicadores avaliados). Houve diminuição da incidência de alguns eventos, como pneumotórax iatrogênico e impossibilidade momentânea de prevenir deterioração clínica maior (como parada cardiorrespiratória) em pacientes pré-selecionados e com gravidade (ou risco significativo de agravamento) – provavelmente muitas vezes já pagando o preço de complicações potencialmente evitáveis. Os achados positivos não empolgam, apesar da significância estatística. Seis dos 20 indicadores não sofreram modificações durante o período avaliado. Conclusão dos autores: “os resultados indicam oportunidades tanto para melhorias quanto para eliminação de algumas estratégias atuais”.

Pneumotórax iatrogênico é um evento bem menos freqüente do que muitos onde a tendência foi de piora; a solução aparentemente mais eficaz para este problema requer um processo de implantação e capacitação bastante oneroso, não somente financeiramente (disseminação de punção guiada por ecografia). Em relação à diminuição de failure to rescue, pode ter sido por: 1) melhor seleção de candidatos a ressuscitação (seria tão bom se fosse verdade…); 2) crescimento dos hospitalistas (há dados na literatura que explicam 1 por 2); 3) melhor relação de enfermeiras por leitos. Ou talvez em função dos Times de Resposta Rápida, cujos resultados maiores são ainda mais questionáveis, além do altíssimo custo que podem agregar.

O que mais me chamou a atenção lendo o trabalho foi a enorme validade potencial de identificarmos melhor áreas para melhorias e poder focar. Lembro bem dos conselhos de Gregory Maynard, diretor do Programa de Medicina Hospitalar da Universidade de San Diego e vice-presidente do SHM Center for Healthcare Improvement and Innovation: “para fazer bem quality improvement: pouca coisa por vez”. Muito diferente de “corrida maluca” pela qualidade e segurança.

Outra publicação recente e bastante provocativa é Toward Improving Patient Safety Through Voluntary Peer-to-Peer Assessment. Assinada por nada menos do que Peter Pronovost e no American Journal of Medical Quality de dezembro, traz mais uma sugestão para o problema dos erros na assistência a saúde.

“Apesar de considerável dedicação de recursos e pressões, segurança do paciente melhorou meramente 1% entre 2000 e 2005”, citando a AHRQ como referência. A partir disto, os autores questionam a validade do trabalho tradicionalmente desempenhado por nossas gerências de risco, através de análises retrospectivas de eventos adversos. Comentam então que os resultados pouco entusiasmantes no setor saúde contrastam com aqueles observados na indústria nuclear, onde implantaram ferramenta P2P (voluntary and proactive peer-to-peer assessment program to improve plant safety and reliability), com resultados animadores desde 1991, a partir de quando estes esforços se tornaram globais, restanto “apenas” a recente tragédia da usina nuclear japonesa de Fukushima de lá para cá (ler sobre ela no link é interessante). O modelo proposto é bastante complexo, apresenta significativas barreiras, mas tudo isto só serve para reforçar o que no fundo todos sabemos: segurança do paciente ainda é um projeto bastante inacabado.

Pronovost e os demais autores caracterizam bem as diferenças do ideal daquilo que fizemos hoje na Saúde. Na teoria “system approach” e uma “cultura justa”; na prática uma atmosfera de julgamento e medo. “Apesar de revisões externas por agentes reguladores e acreditadoras serem necessárias e importantes, provavelmente não irão determinar ganhos substanciais em segurança do paciente”, afirmam. “Não são vistas como educativas e podem atrapalhar os hospitais na identificação dos erros e no processo de aprender com eles”. Provavelmente estas limitações sequer sejam problema do método em si, que intrinsecamente só pode ser eficaz, mas de sua aplicação no mundo real, onde nem sempre a eficácia se traduz em efetividade.

Queridos leitores, há ainda um longo caminho pela frente… Muitas vezes Saúde Web reproduz nossos textos se utilizando da expressão “para o especialista, …”. Neste campo da segurança do paciente acho que serei por muitos anos um estudante. E isto me fascina, ao invés de desanimar! E podem, sem problemas, escrever “para o aprendiz, …”.

O desafio é deixarmos um sistema de saúde mais seguro para as próximas gerações. E já estou reservando a segunda edição do livro de Robert Wachter, Understanding Patient Safety, a ser lançada em junho de 2012 e já a venda na web.

  • Claudio Nunes

    Segurança do paciente com todo o investimento e campanha nos Estados Unidos em especial, tem o dissabor de consistentes trabalhos somente demonstrarem melhoria de 1% . Por que será? A comparação com o acidente nuclear de Fukushima me parece impróprio nas questões de gestão de risco, até porque o risco efetivamente reconhecido e divulgado fortemente para todos, leigos ou não, já modificou o DNA do planeta .
    Na verdade todos se sentem responsáveis por um acidente nuclear, decidindo mundialmente se o Irã deve ou não tê-la, se Angra deve ampliar ou não e mais uma centena de exemplos. Mas e a Segurança do Paciente? Se complicar, já que está no Hospital, ” os médicos tratam”.
    A saída é mão na massa: auto-conhecimento, transparência, responsabilização, análise quantitaiva e qualitativa, indicadores de resultado assistencial, informação a todos os “stakeholders” de todas as mazelas assistenciais, principalmente os usuários, benchmarking com instituições que trabalham com indicadores, e tomada de decisões que demonstrem problemas comportamentais graves na atuação das equipes de saúde, que infelizmente não costuma focalizar no maior interessado, o paciente.
    O caminho é longo, mas não pode ter volta, assim como frustração, indisciplina mental, desfocalização ou esmorecimento.
    Acreditação é apenas um adjunto, tanto adnominal quanto adverbial.

  • http://twitter.com/brhospitalist Guilherme Barcellos

    “The keynote of progress in the 20th century is system and organization” – Dr. Charles H. Mayo (1865-1939)

  • http://twitter.com/brhospitalist Guilherme Barcellos

    Acho que pensamos parecido, Claudio, e chegamos ao mesmo ponto: gestão, transparência, informação a todos os “stakeholders” de todas as mazelas assistenciais, benchmarking, etc. Apenas não escondo algumas dúvidas de como conduzir DAÍ PARA FRENTE e refuto o “paradigma simplificador”. Em se tratando de sistemas complexos, a complexidade é condição própria, gerando mais dúvidas, ou até mesmo confusões eventuais. Cabem sempre reflexões, sem deixar de “fazer o que tem que ser feito”.

    Apesar das estatísticas pouco entusiasmantes, temos razões de sobra para dizermos (e exigirmos) Xô frustração! ou Xô esmorecimento!… Em curto/médio prazo, e sem nenhuma hipocrisia, precisamos dar eficiência ao sistema e reduzir custos – e muitas ferramentas se confundem. Em longo prazo, avançaremos em segurança do paciente, mas será necessário não se ancorar tão forte nos preceitos da causalidade linear…

Sobre Guilherme Brauner Barcellos

É médico formado pela UFRGS e especialista em Clínica Médica e Medicina Intensiva. Foi pioneiro em promover de forma organizada o modelo de Medicina Hospitalar no Brasil, através de iniciativas como o Grupo de Estudos e Atualização em Medicina Hospitalar (2004) e a Sociedade Brasileira de Medicina Hospitalar (2008). Atualmente é presidente da Pan American Society of Hospitalists, coordenador do capítulo brasileiro da Society of Hospital Medicine e revisor do Journal of Hospital Medicine. Como formador de opinião e consultor, colaborou na implantação e aprimoramento de alguns programas brasileiros de Medicina Hospitalar.

Entre em contato com Guilherme Brauner Barcellos

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