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Papo muito sério: é preciso melhorar a transição do cuidado entre hospital e atenção primária no Brasil.

24 de janeiro de 2012 10:35

Quando ocorre uma internação hospitalar, a alta é um processo experimentado por todo paciente que não vem a falecer. Tratada como algo banal, não deveria ser. É uma etapa crítica do processo de assistência!

Após as altas hospitalares, cerca de metade dos pacientes experimentam ao menos um erro relacionando à assistência a saúde, mais comumente de medicamentos. Parte destes pacientes sofre eventos adversos evitáveis, atribuídos a uma programação de alta inexistente ou mal feita.

Há falta de uma sistematização da seqüência de seguimento que a pessoa deve ter no sistema de saúde fora do hospital. Quase metade dos pacientes norte-americanos tem exames que ainda estão pendentes no momento da liberação do hospital e muitos (mais da metade em uma avaliação) se perdem em falhas de processos. Numerosos estudos internacionais demonstraram ainda o quanto falham nossos sumários de alta em disponibilizar informações essenciais para um adequado follow up. Mudanças em medicações nas admissões e nas altas são sempre bastante comuns e fontes de muitos riscos. A comunicação entre os dois mundos é problemática, levando a erros na assistência, danos, readmissões, aumento de custos…

E no Brasil, será que está questão é também importante? Avaliemos usando readmissões como exemplo:

O sistema de serviços hospitalares brasileiro apresenta relevante taxa de readmissão, independente da fonte de financiamento e do local de ocorrência, que aponta para a necessidade de buscarmos conhecer os fatores contribuintes e soluções possíveis. É o que escancarou recente tese de doutorado de Marizélia Leão Moreira (São Paulo, 2010), onde se analisou internações hospitalares durante um ano no país e as readmissões em até um ano após. Os dados iniciais ultrapassaram 27 milhões de registros, oriundos dos sistemas de internações SUS (SIH) e de internações não SUS (CIH). Foram selecionados 10.332.337 indivíduos para o estudo, totalizando 12.878.422 internações.

Em um recente evento em Terezina, no Piauí, onde eu apresentava a Medicina Hospitalar (MH) como possibilidade para três hospitais do sistema público da região, fui questionado por um colega sobre o calcanhar de Aquiles da MH norte-americana: a descontinuidade entre hospital e atenção primária. O assunto é polêmico por lá. Respondi com outra pergunta e comentário: -“Mas como é por aqui? Esta continuidade, com a mesma pessoa ou grupo prestando assistência em cada um destes “mundos”, existe no sistema que abrange os hospitais em discussão? Pois no Rio Grande do Sul, tchê, está quebra existe no sistema público e sem hospitalistas. E já conheci a coisa assim quando ingressei na faculdade de Medicina”. “Eeeeé, aqui já existe também”, aceitou o colega, ilustrando como isto, então, é um falso obstáculo para a MH no Brasil.

Nos EUA, a descontinuidade entre assistência hospitalar e ambulatorial foi efetivamente criada em 1983 pela alteração no modelo de remuneração do Medicare. Saiba mais. A partir daí, passaram a estruturar a assistência hospitalar da melhor maneira possível e surgiu a figura do full-time hospitalist. Tudo indica que por aqui estamos atrasadíssimos ou pior: o multiemprego e a fragmentação que não respeita sequer etapas bem definidas da assistência só crescem.

Médicos com atuação pouco dedicada ao hospital (nômades, transeuntes), mesmo não atendendo “o mesmo paciente” fora dele;

Problemas na estruturação do nosso atual modelo de alta hospitalar;

Processos de referência e contra-referência deficientes;

Médicos que trabalham em hospitais e médicos de família vulneráveis a um sistema falho demais;

Pacientes e a saúde financeira do país sofrendo as piores conseqüências. 

Ou ESTÁVAMOS atrasadíssimos…

Associação Catarinense de Medicina de Família e Comunidade, Sociedade Panamericana de Médicos Hospitalistas, Associação Brasileira de Medicina de Emergência, Sociedade Brasileira de Informática em Saúde, Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, médicos generalistas dos mais variados tipos, em um esforço inédito de aproximação entre grupos que costumam viver em silos, apresentam iniciativa não menos extraordinária:

O quê? Seminário nacional sobre transição do cuidado

Quando? 26 de abril de 2012

Onde? Atividade pré-congresso Sul-Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade

Atração principal? Sunil Kripalani, EUA

Informações adicionais? www.pasha2010.com e muito em breve nos sites das entidades envolvidas

Que seja apenas o começo de uma ampla discussão nacional sobre o tema.

  • Breno

    Excelente ponderação!
    E o pior… apesar de pouco, o dia da alta hospitalar não é pago pelos convênios! Pelo menos aqui em Belo Horizonte.
    Temos um longo caminho pela frente…

  • Adrianos Loverdos

    Interessantíssimo e muito oportuno, parabéns pela contribuição!

Sobre Guilherme Brauner Barcellos

É médico formado pela UFRGS e especialista em Clínica Médica e Medicina Intensiva. Foi pioneiro em promover de forma organizada o modelo de Medicina Hospitalar no Brasil, através de iniciativas como o Grupo de Estudos e Atualização em Medicina Hospitalar (2004) e a Sociedade Brasileira de Medicina Hospitalar (2008). Atualmente é presidente da Pan American Society of Hospitalists, coordenador do capítulo brasileiro da Society of Hospital Medicine e revisor do Journal of Hospital Medicine. Como formador de opinião e consultor, colaborou na implantação e aprimoramento de alguns programas brasileiros de Medicina Hospitalar.

Entre em contato com Guilherme Brauner Barcellos

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