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Quando iniciei minha residência médica em anestesiologia, excitado com a possibilidade de controlar a dor perioperatória e suas conseqüências, dei vazão a meu lado filosófico e descrevi assim minhas expectativas em relação ao conhecimento por adquirir: “Tomei uma decisão, vou me preparar com o objetivo de fazer com que as pessoas não mais sofram, nem que para isso tenha que fazê-las dormir”.
Eram palavras espirituosas, mas refletiam um sentido mais amplo para a anestesia. Além de aliviar a dor, fazer dormir e acordar, queria tratar, e se possível eliminar o sofrimento emocional decorrente do adoecer. Estava iniciando meu treinamento, não tinha a menor idéia de como lidar com emoções, mas imaginava que associado a outras alternativas, o sono poderia servir como um bálsamo para o sofrimento humano.
Sofredores das mais variadas estirpes descobriram isto bem antes de mim e utilizam-se do sono medicamentoso como um escape da “vida dura”. O problema é que “conflitos afetivos” não desaparecem quando se dorme, são tão somente anestesiados e o alivio é temporário. Quando acordam, os problemas ainda estão no mesmo lugar. Por isto mesmo é que dormir não deve ser a primeira opção para tratamento da infelicidade. Pão e circo também funcionam como ópio para o povo, atenuando as dores sem contudo curá-las.
Não era este o tipo de anestesia com que sonhava. Pensava em uma anestesia física e emocional. De um lado o ato técnico-científico, removendo a dor cirúrgica do corpo, e de outro, um apoio para a alma que sempre se debilita quando o indivíduo adoece. Dormir física e acordar psicologicamente.
Antes da cirurgia, o contato com o anestesiologista costuma ser de curta duração, porém intensoem emoções. Carente, fragilizado e ansioso pela doença, o paciente procura um vinculo de confiança para poder se entregar. Sabe que enquanto estiver inconsciente ou sedado, sua pele será cortada, seu corpo invadido, talvez retirem um pedaço e quando acordar, será presenteado com uma cicatriz. Além disto, será afastado de seu convívio familiar, social e profissional, passando a conviver com situações novas. Precisa acreditar que será bem cuidado e terá toda a atenção e recursos disponíveis nesta sua jornada. Quem lhe dará esta segurança? Quem será o elo de ligação entre as novas rotinas e o mundo do qual foi afastado?
O cirurgião precisa ficar concentrado na anatomia, no bisturi, no sangramento, e nesta hora, encontra-se totalmente focado no campo operatório, não tendo condições de cuidar do paciente como um todo. Esta vigilância precisou ser terceirizada para o anestesiologista, que durante muito tempo não soube entender o significado e a grandiosidade de seu trabalho. Restringia-se a conhecer o paciente na sala de cirurgia e anestesiá-lo. Incógnito, nos bastidores, tratado como um auxiliar técnico, sequer apresentado pelo nome, aguardava o paciente acordar e dava por encerrada sua missão.
Manter o paciente sonolento, imobilizado e sem dor, satisfazia cirurgiões, pacientes e familiares. Nunca me conformei com este respaldo técnico, ambicionava ir além. Queria oferecer antes de tudo, segurança. Física e emocional. Pacientes e cirurgiões precisariam estar tranqüilos e confiantes de que um especialista assumiria provisoriamente o controle do estado de consciência, reflexos e sinais vitais, enviando todos seus esforços e conhecimentos para restabelecê-los integralmente ao final da cirurgia. Imaginava uma maneira de deixar o paciente seguro e minimizar sua ansiedade, de preferência sem uso de medicação. Como fazer?
A oportunidade de quebrar o paradigma, sair do anonimato e mostrar-se como um médico depositário da confiança acontece com o paciente desperto. É neste momento de vulnerabilidade e dependência que a demonstração de conhecimento, experiência, respeito, atenção e empatia com o sofrimento alheio começam a construção da autêntica relação médico-paciente.
Para ser valorizado como médico é preciso agir e posicionar-se como tal. Por vezes será necessário desenvolver habilidades de psicólogo, assistente social, enfermeiro, juiz de direito. Outras vezes atuará como cardiologista, intensivista, pediatra, mas acima de tudo, a arte de anestesiar está em fazer com que percebam a genuína intenção e o tamanho da responsabilidade de um médico especialista ao assumir a posição de guardião da vida, depositário da confiança e elo de ligação entre paciente, cirurgião e familiares.
Evoluímos como especialidade nestes últimos 50 anos. Anestesiar é muito mais do que fazer dormir e acordar sem dor. Certamente avançaremos em direção ao lado emocional da doença física. Espero que as novas gerações consigam transformar em realidade aquele meu velho sonho e possam aliviar também aquelas dores que fazer dormir não conseguem curar, as dores da alma.
Artigo dedicado a meu filho Leonardo, que se formou em medicina e inicia agora sua especialização em anestesia.
Ildo Meyer é palestrante motivacional e médico com especialização em anestesiologia e pós-graduação em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter.
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